Partiram para as gravações do sexto álbum de originais com um novo elemento. O baterista Steve Forrest ajudou a marcar uma nova era na carreira dos Placebo. Estão mais optimistas e a sonoridade de Battle for the Sun é um reflexo disso, como explica o vocalista Brian Molko. «Este é um álbum que tem a ver com mudança. Meds [de 2006] lidava com a ideia de um beco sem saída. Temos de olhar para o lado bom da vida, passámos tanto tempo na sombra que é refrescante olhar para o sol». A saída de Steve Hewitt, que tomou conta das baquetas por mais de dez anos, pode ter provocado receios entre os fiéis da banda, mas o cantor garante que colocou um fim à infelicidade que o projecto sentia. «Fomos uma banda bastante infeliz durante muito tempo, o que precipitou uma mudança na formação da banda. Quando nos juntámos para voltarmos a ser criativos, com sangue novo, sentimo-nos naturalmente optimistas em relação ao futuro, tínhamos um futuro novamente e sentíamo-nos sem complexos criativos».Os Placebo socorreram-se da ajuda de um produtor, Steve Bottril, com o qual nunca tinham trabalhado – mas que deixou marca em trabalhos dos Tool, Muse ou dEUS. Quer Bottril quer Forrest ajudaram a banda a voltar ao vigor da adolescência: «Há um ditado antigo no Reino Unido que diz “you’re only as old as the woman you feel” e, numa banda, somos sempre tão velhos quanto o nosso baterista», ri Molko. Não quer isto dizer que Battle for the Sun é saudosista. «Não acho nada que seja um álbum nostálgico. Em termos sonoros é muito ambicioso e mostra-nos a abrir as nossas asas. Tentámos fazer um álbum intemporal, clássico, que não envelheça». Quanto ao valor acrescentado pelo produtor, Molko não tem dúvidas: «influenciou muito os arranjos e as estruturas das canções deste disco. Acho que é muito responsável pela complexidade destas canções. Sinto que, com este álbum, estou pronto para gritar do topo de uma montanha. E é bom sentir-me assim, não me sinto embaraçado por isso».MOLKO, O ESCRITORSempre com referências culturais que vão muito além da música – para os mais curiosos: o seu livro preferido é Pela Estrada Fora, de Jack Kerouac, e o filme de eleição Blue Velvet, de David Lynch – Brian Molko assume que todos os álbuns dos Placebo são muito pessoais e que se sente um contador de histórias. «Vejo-me como um escritor. Escrevo pequenas ficções baseadas em acontecimentos e emoções reais. O meu processo de escrita não é intelectualizado, é instintivo. Daí a boa dose de ambiguidade, o que é muito positivo porque cada ouvinte pode colocar-se dentro da canção». Os Placebo nunca tiveram problemas em abordar temas como o uso de drogas ou a homossexualidade, o que elevou Molko ao estatuto de ícone. «Como banda podemos dar algum conforto às pessoas que se sentem à margem. Não era essa a nossa intenção mas acabou por ser o produto da nossa honestidade. Não me considero de forma alguma um modelo a seguir; tudo o que faço é expressar a minha visão do mundo».Depois de partilhar a voz com alguns dos seus ídolos, como David Bowie ou Frank Black (Pixies), Molko assume que tem dois desejos por realizar: «Adoraria fazer um dueto com a Björk ou com a PJ Harvey. São duas das minhas cantoras contemporâneas favoritas». Apesar de assegurar que não tem qualquer intenção de seguir uma carreira a solo – «é um negócio muito solitário» – o cantor assume que há bandas que o fazem ter vontade de deixar a música. «Acontece sempre que os Queens of the Stone Age vão para a estrada. Também senti da primeira vez que vi os At the Drive-In. Quando vês estas bandas e sentes vontade de te reformar, tens de te agarrar a esse sentimento e dizer: “ok, agora tenho uma ambição maior, tenho de trabalhar arduamente para ser melhor que eles”».Placebo - 10 de Julho, Palco Optimus, 22h45
Mário Rui Vieira