'Acho que já pisámos todos os palcos que queríamos pisar'. A afirmação é de Zé Pedro e não é feita de ânimo leve. Segue-se a uma pausa, uma revisão pessoal e rápida de três décadas de muitas conquistas - banhos de multidão em Queimas das Fitas, cobiçadas primeiras partes para lendas vivas do rock and roll, passagens pelo Pavilhão Atlântico, Coliseus e praticamente todos os grandes espaços onde uma banda pode sonhar tocar em Portugal. É, de facto, uma afirmação de quem tem os pés bem assentes na terra. Agora, os Xutos enfrentam mais um desafio e sobem a um palco especial montado no estádio do Restelo para a celebração de três décadas de carreira (ver caixa). Antes de subirem as escadas que levarão ao palco, há um ritual que Tim, Kalú, João Cabeleira, Gui e Zé Pedro têm sempre que cumprir - apertam as mãos uns dos outros, gesto de união que ajuda a explicar a longevidade e a genuína vontade com que se entregam repetidamente a estes momentos de celebração em frente do público.'Temos um público muito alargado, com gente muito nova em frente aos palcos, que é algo que nos obriga a estarmos em forma e atentos', explica Zé Pedro, deixando claro que nestes anos todos de história os Xutos souberam descobrir novos públicos e manter acesa a sua chama rock. As memórias de Zé Pedro ajudam a explicar o sucesso desta história e o porquê do final ainda estar longe de ser escrito.Maio de 1979 Liceu D. Pedro V Vínhamos da estreia nos Alunos de Apolo, onde tínhamos tocado as tais quatro músicas em seis minutos. Essa foi mesmo a nossa estreia como banda, foi a primeira vez que eu pisei um palco, mas acho que não aproveitámos devidamente a ocasião e acabou por ser uma mera apresentação. O primeiro concerto a sério foi portanto este, em Maio de 79, em que tocámos depois dos Minas & Armadilhas e antes dos Aqui d'el Rock. Retenho essa prestação na memória, tocámos ainda com o Zé Leonel e sentimos mesmo aquela animação de quem queria ir para a frente e ser mesmo uma banda de rock and roll. Tenho boas memórias desse concerto, foi numa tarde de sábado, o local estava cheio e fazia muito calor. Nesse concerto estavam alguns familiares: o pai do Tim, por exemplo, a minha mãe. E estavam também uma série de punks da Amadora que ficaram logo nossos fãs e com quem desenvolvemos uma certa cumplicidade no início da carreira'.Depois desta apresentação, num liceu e ainda em registo puramente amador, Zé Pedro afina a memória para falar de duas míticas noites no Rock Rendez Vous de onde saiu um álbum que demorou 14 anos a ver a luz do dia - 1º de Agosto no RRV.31 de Julho e 1 de Agosto de 1986 Rock Rendez Vous Estes concertos foram memoráveis. No primeiro dia assinámos contrato com o Tozé Brito para a PolyGram, mas já tínhamos salvaguardado estas gravações para uma edição na Dansa do Som e prevíamos que o disco saísse no final desse ano de 86, embora tal não tenha vindo a acontecer provavelmente por causa de divergências entre o Vítor Silva e o Mário Guia do Rock Rendez Vous. As fitas chegaram mesmo a estar desaparecidas durante uma data de tempo, mas depois foram recuperadas. Foram duas noites totalmente esgotadas no RRV, fotografadas pelo Álvaro Rosendo e gravadas pelo Zé Nabo [baixista com enorme currículo que hoje acompanha Rui Veloso] que desmontou a consola que viria a ser do estúdio do Ramon [Galarza, produtor e membro temporário dos Xutos] e montou todo o material lá no RRV. Esta foi a primeira vez em que nos sentimos uma banda já mais importante. Tudo isso junto - estar ali muita gente a trabalhar, mais o facto de termos assinado contrato com a PolyGram, fez-nos pensar e acreditar que estávamos a dar um grande salto em frente'.E estavam mesmo. A segunda parte da década de 80 só conheceu, no caso dos Xutos, sentido ascendente. E como tinha falhado a tentativa de editar um registo que desse conta da força que esta banda conjurava a partir dos palcos, em 88 voltou-se à carga, desta vez com a edição a acontecer mesmo com o singelo título Ao Vivo.29, 30 e 31 de Julho de 1988 Pavilhão d'Os Belenenses Para este concerto, foi desmontado o estúdio Angel II e montado lá n'Os Belenenses. E foi outra enchente, com um mar de gente a comparecer. Já tínhamos feito no ano anterior um concerto com O Circo de Feras que também foi uma grande enchente mas que gravámos apenas para a televisão. Mas este concerto de 88 tocou-nos muito mais por tudo o que envolvia, sobretudo por estar a ser gravado para um disco, um triplo ao vivo, que era o único disco triplo da música portuguesa. Tínhamos essa responsabilidade em cima dos ombros, mas as coisas resultaram muito bem. Um dos episódios curiosos neste concerto foi a visita que tivemos dos Lords of the New Church que tinham vindo para tocar no RRV e que nos foram visitar numa tarde de ensaios. Acabei por ficar muito amigo do baixista [Dave Treguna, antes dos Sham 69] e depois acabei até por ir até ao Algarve com eles e passámos lá uma temporada muito engraçada'.Os Lords of The New Church eram uma espécie de super grupo pós-punk, com membros dos Damned, Dead Boys, Sham 69 e Barracudas. Stiv Bators, o vocalista, viria a falecer 2 anos depois deste encontro com os Xutos, numa época em que Zé Pedro e companhia já tocavam para dezenas de milhar de pessoas em Queimas das Fitas.Maio de 1990 Queima das Fitas de Coimbra Nesta altura estávamos um bocado a descer no grau de popularidade e as relações internas da banda não eram as melhores. Nós tínhamos vindo de França onde tocámos com os Mano Negra e fizemos cá alguns concertos com eles também, incluindo este. Mas tínhamos um manager a querer dar-nos a 'banhada' e a lançar veneno entre nós e isso concorreu para que esse ano não nos tenha corrido nada bem. Mas no meio disso tudo este concerto foi muito bom, havia milhares de pessoas e os Mano Negra deram um espectáculo brutal, o que nos animou bastante'.A travessia do deserto dos Xutos começava aqui, com uma época mais complicada de que souberam recuperar para um período de crescimento contínuo a que a dedicação extrema do público não é alheia.27 de Setembro de 2003 Estádio Municipal de Coimbra O convite para os Rolling Stones foi fabuloso e caiu-me logo muito bem porque cumpria um sonho: pisar o mesmo palco dos Stones. Toda a emoção de ir para o estádio, de passar com a carrinha pelo meio das pessoas, de ser recebido daquela maneira, com as pessoas todas a apoiarem-nos e ter saboreado um bocadinho do espírito do backstage de um concerto dos Stones foi deveras emocionante. E consegui, pela segunda vez, apertar a mão ao Keith Richards. Já o tinha feito uma vez de fugida em Alvalade, mas ter-lhe dado um 'bacalhau' desta vez foi para mim algo de superior. E depois foi engraçado, porque quando o stage manager se virou para o Pita [lendário homem dos concertos em Portugal, passou pelo RRV e é hoje director técnico no Pavilhão Atlântico] e lhe disse que podia ir chamar a primeira banda, ele disse-lhe que nós já estávamos à beira do palco e ele respondeu 'Ai é? Então podem tocar mais uma música!' E quando saímos esse stage manager foi o primeiro a vir dar-nos os parabéns. Lembro-me de estar completamente emocionado a olhar para toda a parafernália dos Stones, por termos sido capazes de pisar um palco da primeira divisão mundial. Esse concerto vai ficar na minha memória para o resto da vida'.No início da carreira, num concerto em Santa Cruz com os Minas e Armadilhas, Zé Pedro dormiu em cima do palco, tapado com as capas dos amplificadores. Quando acordou na manhã seguinte voltou-se para Kalú e afirmou 'vais ver que um dia ainda faremos uma primeira parte dos Rolling Stones'...6 de Maio de 2004 Queima das Fitas do Porto Esta noite ficou-nos na memória porque houve uma chuvada incrível, até em cima do palco chovia. Mas mesmo assim conseguimos manter 60 mil pessoas no recinto. As pessoas estiveram praticamente as duas horas do espectáculo a levar com a chuva em cima e isso impressionou-nos bastante. E esta é uma homenagem que eu quero fazer ao público que mesmo em condições totalmente adversas consegue apoiar-nos. Lembro-me de estarmos no backstage a discutir se haveríamos de cortar algumas músicas, mas acabámos por fazer o concerto inteiro'.Para a segunda parte deste top pessoal, Zé Pedro guarda as grandes datas, a começar na produção do Pavilhão Atlântico com que os Xutos comemoraram um quarto de século regado a rock and roll.8 e 9 de Outubro de 2004 Pavilhão Atlântico Este foi o concerto de comemoração dos 25 anos. Isto foi uma aposta brutal de produção feita pela Marta Ferreira [irmã de Kalú e manager dos Xutos durante mais de uma década, falecida em 2007] que se empenhou totalmente na montagem desta operação. Fizemos isto sem nenhum patrocinador. Ainda tentámos até à última hora, mas não se conseguiu e por isso foi um risco assumido totalmente por nós. E mesmo assim foi uma produção superior, acho eu: por causa de todas as pessoas envolvidas, por causa dos cenários, por termos tido o palco em X. Já tínhamos feito um Atlântico antes, mas desta vez a ocasião era diferente, eram duas noites e por isso não quisemos repetir nada. Mas ganhámos a aposta, as pessoas compareceram e por isso muitos parabéns à Marta Ferreira por ter apostado tão alto e ter ganho a aposta'.Nestas três décadas os Xutos revelaram sempre a inteligência de não cansar o seu público e procuraram em momentos chave formas alternativas de fazer do acto de subir ao palco uma renovada e excitante aventura.24, 25 e 26 de Novembro de 2005 Coliseu dos Recreios Foi a primeira vez que resolvemos fazer três dias no Coliseu dos Recreios com três alinhamentos diferentes. Durante esse ano fizemos esses três alinhamentos - dividimos o ano em trimestres e tocámos um alinhamento em cada trimestre e depois no fim do ano fizemos então estes três espectáculos com todos os alinhamentos. Um dos alinhamentos foi escolhido por mim, outro pelo Cabeleira e penso que o terceiro era do Kalú. Foi uma ideia engraçada que tivemos e que conseguimos pôr em prática e que por isso merece ser recordada. Penso que nunca ninguém o tinha feito e o engraçado é que houve muitos fãs que viram as três noites, por serem tão diferentes'.Há sonhos que se cumprem, mesmo. Mas será que alguém tinha sonhado algum dia em ver os Xutos com uma orquestra de jazz?2 de Setembro de 2007 Torre de Belém Em 2007 fizémos um concerto muito engraçado na Torre de Belém com a Big Band do Hot Clube, com arranjos do Pedro Moreira. 15 elementos de sopros a acompanharem a música dos Xutos perante uma plateia com umas 30 ou 40 mil pessoas, numa noite fabulosa. Conseguimos fazer um concerto como nunca antes tínhamos feito: os ensaios correram extraordinariamente bem, o contacto com os músicos foi fantástico e os arranjos estavam muito bons. Achei fantástico como o Pedro Moreira conseguiu não mexer na identidade dos Xutos e acrescentar aquele swing... vá lá, mais New Orleans'.E para o final, uma antevisão do que aí vem, com Zé Pedro a deixar claro que os melhores Xutos são os do presente. Saudades para quê, afinal de contas?28 de Agosto de 2009 Corroios Para último, vou apostar tudo nesta tournée (risos). E vou escolher o concerto de Corroios: foi fabuloso, com 50 mil pessoas em frente. O palco é um palco fixo, de cimento, onde toda a gente toca, mas com tanta gente em frente tinha-se a sensação de estar num grande anfiteatro. A digressão tem corrido muito bem, apostámos muito forte nas luzes, nos efeitos cénicos, mas este concerto foi especial. Quanto entrei em palco senti mesmo a energia das pessoas, foi arrepiante. Acho que foi um dos nossos melhores espectáculos este ano'.Actuam a 26 de Setembro no Estádio do Restelo. 30 anos à maneira deles A 26 de Setembro terão o Estádio do Restelo só para eles. Um espectáculo, certamente, para recordar por muitos anos.'O alinhamento vai ser alterado para o Restelo, temos previsto tocar 30 musicas, no mínimo. Antes vamos ter duas semanas de ensaios nos bombeiros do Montijo', revela Zé Pedro que assim dá conta do empenho que a banda coloca numa apresentação como esta. 'O palco, as luzes, os ecrãs - será tudo novo. O palco vem do estrangeiro e ocupa quatro camiões TIR, os ecrãs são os que os Stones usaram em Coimbra... ao todo serão uns 25 camiões. Teve mesmo que ser construída uma rampa para dar acesso aos camiões', explica o guitarrista, sem esconder o orgulho que uma produção desta envergadura justifica. Como sempre, os Xutos têm algumas surpresas reservadas para tornar a ocasião ainda mais especial, mas sobre isso Zé Pedro não avança nada. No entanto sabe bem o que vai fazer no dia seguinte ao concerto: 'vou dormir até tarde, depois hei-de ir votar e ficar à espera dos resultados'.
Rui Miguel Abreu