Ver as Au Revoir Simone ao vivo é quase a mesma coisa que assistir a um número de magia ou à transposição para o palco de um conto de fadas: de cabelo longo e liso, envergando vestidos mimosos (mas com etiqueta de designer - já lá vamos) e com uma expressão invariavelmente cândida, Annie Hart, Erika Forster e Heather d'Angelo manuseiam sintetizadores e uma caixa de ritmos como quem abana uma varinha mágica ou cozinha um bolo (nobre actividade que entretém, de resto, as três ninfas no vídeo da famosa "Sad Song"). É difícil imaginar estas meninas a fazer ou dizer alguma coisa que não seja doce, perfumada, levitante - e, no entanto, elas garantem que a vida na estrada nem sempre é um mar de rosas, e que as suas personalidades são bem mais contrastantes que o onírico visual.A própria música que as Au Revoir Simone vêm gravando nos últimos quatro anos oferece, aliás, leituras distintas à medida que se "descasca" o mil-folhas de synth pop açucarada e melancólica. Terá a banda mais feminina de Brooklyn, afinal, um lado (mais) negro? "Sem dúvida!", exclamam Annie Hart e Erika Forster, em entrevista concedida ao jornal Optimus/BLITZ, numa noite quente do Verão passado. "A maior parte das nossas músicas tem um lado escondido muito negro. Todos temos problemas na vida, e nós tentamos olhar para o lado positivo das coisas. Mas quando escrevo as letras, ou mesmo o refrão de uma canção, isso sai-me de um sítio triste", reflecte Erika. "Ao mesmo tempo, queremos ser optimistas e olhar para o futuro de uma forma positiva, achando que mesmo as más experiências amorosas [têm o seu lado bom]".Ao terceiro álbum - Still Night, Still Light, lançado este ano - as Au Revoir Simone colhem os frutos de uma popularidade que começou a despontar no disco anterior, The Bird of Music. Foi aí, logo à segunda faixa, que ouvintes de todo o mundo se deixaram embeiçar por "Sad Song", possivelmente a mais conhecida música do grupo e um bom exemplo dos jogos de luz e sombra que permeiam os seus três álbuns. Será que, conforme diz a letra, o que as pessoas querem ouvir são mesmo canções tristes? "Quando estás triste, acho que sim!", respondem as cantoras e teclistas. "Julgo que uma canção triste pode fazer-te sentir menos sozinho. A música fala-te sobre aquilo que estás a sentir e faz-te perceber que, afinal, se trata de uma experiência universal", analisa Erika. "Além do mais, quando estou triste adoro ouvir música realmente deprimente, para entrar melhor na tristeza, compreender melhor essa experiência. Acho que, quando mais fundo fores, mais facilmente podes sair [desse estado], em vez de ficares só ali à superfície". Entre as canções tristes favoritas de Erika está, esta temporada, "Little Shadow", dos Yeah Yeah Yeahs. "No disco de versões acústicas dos Yeah Yeah Yeahs, a versão da "Little Shadow" parece-me muito semelhante às nossas canções. Não é que seja parecida, mas é similar na forma como reconhece a presença de uma emoção. É uma canção lindíssima!".Irmãs, nós? A presença frugal e quase mística das Au Revoir Simone, quer em palco quer no cuidado trabalho gráfico que acompanha os seus discos, dá origem a todo o tipo de mal entendido, que Erika e Annie desfazem com alguma preguiça. "Às vezes pensam que somos irmãs. Outras vezes 18acham que somos francesas. E toda a gente nos pergunta se nos conhecemos na escola", enumeram paulatinamente, sem sinal de indignação. Outra das imagens que se colam à aura conjunta de Annie, Erika e Heather é a de Virgens Suicidas, mercê do filme homónimo de Sofia Coppola. "Isso também é muito normal", reconhecem, entre risos. "Mas, ao contrário do que as pessoas julgam, nós não fazemos de propósito para ficarmos parecidas. Só temos todas cabelo comprido. Mas somos pessoas muito diferentes", salienta Annie. Em entrevista ao site The Aquarian, o "efeito espelho" é explicado com maior detalhe: "Quando nos perguntam se somos irmãs, pomo-nos a gozar e dizemos que só andamos com pessoas que sejam parecidas connosco. Sinceramente, isto é como um csamento onde acabas por te parecer com a outra pessoa. Em termos de moda, acabámos por ganhar um visual mais homogéneo porque estamos sempre a perguntar umas às outras se uma certa roupa nos fica bem". Num meio conhecido por maior desleixo, porém, o ar asseado e amoroso das Au Revoir Simone já lhes rendeu entrevistas na secção de moda do Guardian, muitas oferendas de estilistas famosos e até uma ligação semi-oficial a Samantha Pleet, uma designer de Nova Iorque que assina algumas das peças vestidas pelas garotas em palco. "Ela tem um estilo gótico e miudinho que eu aprecio muito", afirmou Heather d'Angelo ao Guardian.Apesar da cobertura uniforme, também o bolo musical das Au Revoir Simone revela diferentes camadas. Annie, que na entrevista com o jornal Optimus/BLITZ se revelou uma conversadora entusiasta, jura que era "uma miúda do punk hardcore: fazia uma fanzine e tudo!". Erika, que trabalhou numa rádio universitária, partilha com Heather um amor profundo pela obra de Björk e dos Stereolab, além de adorar tudo o que o camaleão David Bowie já fez. O futuro pode trazer um pequeno tremor de terra à estrutura caseira e portátil das Au Revoir Simone: na mesma entrevista ao site The Aquarian, Erika fala animadamente sobre a trilogia de David Bowie com Brian Eno (Low, Heroes e Lodger) e admite que há vontade de procurar novas soluções, em termos de arranjos e instrumentação. "Começámos por ser uma banda só de teclados e é isso que fazemos. Mas estamos abertas a novas ideias e dispostas a aceitar o desafio. A Annie é uma grande fã de Bach e eu gosto muito da música experimental de Phillip Glass".Como qualquer bom cozinhado, todavia, todos estes grumos e grainhas passam despercebidos na degustação de um disco ou concerto das Au Revoir Simone, tão uno e saboroso como a melhor refeição... macrobiótica? "É a nossa comida favorita!", exclamam, eufóricas, Annie e Erika, dando razão à comparação que a BLITZ teceu aquando da crítica ao seu segundo álbum. E sosseguem os corações mais acelerados, que o crescente amor do nosso país pelas meninas é plenamente correspondido: "Até tenho medo de dizer, porque não quero que as pessoas dos outros países saibam, mas como a entrevista em português, cá vai", atira a castiça Annie. "Portugal é o sítio onde mais gosto de tocar! Não só o público é maravilhoso, como a comida é muito boa e as pessoas são tão amigáveis! Não percebo português mas adoro o som, e o ar cheira tão bem, a luz do sol é tão linda!", esbraceja, arrebatada. "Adoro tudo neste país e adorava mudar-me para aqui, se pudesse, e dar concertos todos os dias!".Actuam no Clubbing Optimus da Casa da Música, no Porto, a 3 de Outubro.Os fãs delas são gente fina Podem ser moçoilas acessíveis e trabalhadoras, que montam os próprios instrumentos e ficam junto ao palco depois do concerto, vendendo merchandising, mas as Au Revoir Simone apelam à mais fina flor de Hollywood. A actriz Kirsten Dunst, curiosamente uma das protagonistas de Virgens Suicidas - uma das alcunhas dadas às meninas da banda - é fã de Annie, Erika e Heather. E o realizador David Lynch também já apadrinhou as Au Revoir Simone, ao convidá-las para darem música ao seu livro Catching The Big Fish, ao vivo numa livraria de Nova Iorque. "Felizmente gostou muito de nós e tem sido uma presença fantástica e calorosa nas nossas vidas", confirmou Annie Hart à revista Impose. Colaboração à vista?
Lia Pereira