Celebrar as «quiet nights» da vida em plena agitação de noite eleitoral pode soar a contradição, mas foi isso que o Pavilhão Rosa Mota decidiu fazer. Um recinto esgotado recebeu Diana Krall, que já não cabe nas salas onde normalmente cabe o jazz. O pretexto foi Quiet Nights, álbum recheado de bossa nova, Burt Bacharach e outras coisas leves. Uma obra que aumenta a tendência para lhe colar o rótulo de diva, o que só pode ser injusto.Há pouca pose em Diana Krall. Entra com os músicos em palco (em vez de os pôr a trabalhar para o suspense da sua entrada), não exagera na voz (que é a que se sabe), não tem mais solos do que todos os outros. Deu graxa à cidade, disse que os filhos tinham ficado no hotel a deliciar-se com Vinho do Porto e charutos (têm três anos), convidou toda a gente a ir jantar lá a casa quando a digressão acabar. Tudo naquele tom de vizinha do lado.No meio disso tudo também houve música. 13 temas, dos quais só cinco pertencem a Quiet Nights (entre eles, «The Boy From Ipanema» e, claro, «Quiet Nights»). Alguma bossa nova, portanto, mas daquela com muitas notas pelo meio, cubista, sem puxar pela facilidade da melodia. Além desses, as duas horas de música tiveram outros clássicos, como um acelerado «Cheek to Cheek» e um «I Was Doing Alright» dedicado a Oscar Peterson. O quarteto despediu-se por volta da meia-noite, hora jazzística por excelência.
Texto: Sérgio Gomes da Costa | Foto: Miguel Puga