Sabíamos à partida que os Xutos & Pontapés são imunes a má sorte e a desditas. Não seria por uma vã superstição que o concerto na Arena de Évora, naquela Sexta-feira 13, não resultaria como resulta sempre. Além disso, o número 13 é o número da sorte para os Xutos. Foi num dia 13, o de Janeiro de 1979, que pela primeira vez este cinco cavalheiros subiram a um palco - o dos Alunos de Apolo, em Lisboa. Nada poderia correr mal portanto.Perante 2500 pessoas, míudos, graúdos e todos os que há de permeio, os Xutos subiram ao palco de Évora para apresentar um concerto acústico - um concerto da "Tourné Sentada", como diria mais tarde Zé Pedro. Num passeio tranquilo mas nem por isso menos emotivo e generoso, os Xutos desfilaram boa parte do seu repertório. Iniciaram a noite da melhor maneir: "Barcos Gregos" foi o tema escolhido. A partir daqui, e até metade do espectáculo, presentearam o público com uma bela sequência de temas puramente acústicos. "Circo de Feras" seria o tema eleito para encerrar esta primeira parte. O público, absolutamente rendido, agradecia. Numa toada mais eléctrica, ainda assim não saindo do registo deliciosamente sóbrio que caracterizou a noite, os Xutos iniciaram nova jornada. "Doçuras" foi o tema escolhido. A guitarra de Cabeleira e o baixo competente de Pedro Gonçalves (Dead Combo) - o convidado especial para esta Tourné, faziam as delícias do público. Seguiram-se dois temas no novo álbum. "O Santo e a Senha" e "Perfeito Vazio" faziam assim as apresentações de Xutos & Pontapés , a sair para as lojas dia 13 de Abril. Mas o desfile de emoções e memórias continuava. "Vida Malvada", "Para Ti, Maria", e "Chuva Dissolvente" deslumbrariam o público. Não havia volta a dar, a noite era de celebração. "Homem do Leme" terminaria o concerto não fosse a enorme ovação de pé com a qual os 2500 espectadores presentearam os Xutos. Agradecidos e visivelmente emocionados, os Xutos regressaram para mais quatro temas. "Dantes", um dos primeiros temas da banda, incluído no álbum de estreia 78/82 , "Dia de São Receber" e "Ai Se Ele Cai" faziam a alegria de todos. De pé, com os braços em cruz, a mole humana dançava e agitava-se. "A Minha Casinha", esse hino, seria o tema final. Os Xutos abraçavam-se, o público, de sorriso aberto, comemorava feliz. Mais uma noite se tinha cumprido. Mais uma festa tinha acontecido. Voltem sempre.
Texto: António Torres | Foto: David Infante