Meds marcou um ponto de viragem na carreira dos Placebo. Depois de os álbuns anteriores terem vindo a decair em termos de impacto criativo, o registo de 2006 revelou que ainda havia pulsar rock no peito da banda. Um novo registo de originais, Battle for The Sun, com edição marcada para Junho, vai, no entanto, marcar novas reviravoltas.O sexto álbum de originais dos Placebo será o primeiro desde o segundo álbum da banda a não contar com a bateria de Steve Hewitt (no primeiro registo, a percussão era ainda assegurada por Robert Schultzberg). No final de 2007, foi anunciada a saída do músico da formação da banda – supostamente devido a diferendos pessoais e criativos – e em 2008 entrou o norte-americano Steve Forrest (ex-baterista do projecto punk Evaline). Mas as grandes diferenças podem não ficar por aqui. O álbum é o primeiro que a banda grava fora da Europa – as sessões de estúdio decorreram em Toronto, no Canadá – e o primeiro a contar com produção de David Bottrill, que no passado colaborou com projectos como os Tool, Muse, Silverchair e dEUS. A mistura foi assegurada por alguém que também nada tinha a ver com o universo Placebo: Alan Moulder, cujo nome está associado a trabalhos dos Nine Inch Nails, Korn, Arctic Monkeys, Yeah Yeah Yeahs e Killers, entre muitos outros.Em entrevista à BBC, o vocalista Brian Molko garante que o novo registo não contará com convidados especiais e não se esquiva a apelidar de mais pesado o novo grupo de canções. «Acho que é um bocado mais pesado em certos momentos. Tínhamos consciência que o Meds, o último álbum, era muito escuro e queríamos fazer algo mais claro, mais colorido. Há momentos que são mais pesados que tudo o que fizemos no passado mas também há momentos mais ternos». As novidades não terminam por aqui. Molko avança ainda que alguns temas contam com secção de cordas e secção de metais. «Há trompetes e saxofones, mas não em todo o álbum».As novas canções foram compostas ainda a banda estava na estrada a promover Meds. «Doze meses depois de andarmos em digressão começamos a ficar aborrecidos, porque é tudo muito repetitivo, e temos de manter o cérebro vivo». O trabalho, repartido entre Molko e o baixista Stefan Olsdal, continua a ser facilitado pela surpresa. «A capacidade de nos surpreendermos um ao outro mantém as coisas vivas. Tentamos não nos repetir, o que se torna muito difícil para uma banda», revelou ainda Molko ao radialista Steve Lamacq.Outra novidade que marcará a edição do novo álbum é a mudança de editora. Depois de vários anos ligados a uma major, o trio mudou-se para a independente belga [PIAS]. Sobre esta mudança, Molko disse em comunicado oficial: «Estamos muito contentes por assinar com a [PIAS], uma das mais respeitadas e bem sucedidas editoras de música independente. Temos muita sorte por termos tantas boas editoras interessadas em contratar-nos, é muito importante para nós, especialmente depois de 12 anos a editar discos».Fantasmas do passadoA carreira dos Placebo começou há 15 anos, em Londres. Com a edição do álbum homónimo, em 1996, a banda começou a concentrar em si as atenções de muitos fãs do rock alternativo, muito por culpa da androginia do vocalista e a postura pouco convencional da banda. O registo é até à data o que mais alto subiu na tabela de vendas no país natal e aquele que lhes rendeu prestações em primeiras partes de concertos dos U2 (ver caixa) e David Bowie, que chegou mesmo a convidá-los para tocar na sua festa de 50º aniversário, em Nova Iorque. Placebo deu ao mundo os singles «Bruise Pristine», «Teenage Angst» e «Nancy Boy», este último é um dos primeiros temas a alcançar algum sucesso nas rádios. Foi também com essa canção – primeira a abordar assuntos relacionados com identidades sexuais alternativas – que se iniciou a escalada de popularidade da banda, dentro e fora das fronteiras do Reino Unido.O segundo álbum dos Placebo, Without You I’m Nothing, chegou às lojas em 1998 com a chancela de uma grande editora, a Virgin, e com um novo baterista: Steve Hewitt substituiu Robert Schultzberg, arredado da banda por alegados desentendimentos com Brian Molko. O êxito de «Pure Morning», single de apresentação, nos Estados Unidos chegou a indiciar uma carreira bem sucedida no outro lado do Atlântico, coisa que nunca se chegou a verificar. Single atrás de single – «You Don’t Care About Us», «Every You Every Me» e «Without You I’m Nothing», que contou com uma versão em dueto com David Bowie – a popularidade da banda começou a decair no país de origem, numa proporção inversamente proporcional ao resto do mundo.Com Without You I’m Nothing, Molko e companhia tornaram-se presenças constantes nos festivais de Verão um pouco por toda a Europa (Portugal já os viu por diversas vezes em palcos festivaleiros) e nos topos das tabelas de vendas de países como a França, a Bélgica ou a Suíça. No início do novo milénio, o álbum seguinte, Black Market Music, ajudou a banda a romper no mercado pop, com temas musicalmente mais acessíveis como «Taste in Men», «Special K» ou «Black Eyed», isto sem fazer qualquer tipo de concessões quanto a temas polémicos, como as drogas e a homossexualidade.Sleeping With Ghosts, que chegou às lojas em 2003, foi o único registo de originais da banda a não conseguir romper o top 10 britânico e apenas o primeiro single «The Bitter End» conseguiu fazer boa figura nas tabelas europeias. O sucesso nas rádios parecia no entanto estar assegurado, «This Picture», «Special Needs» e «English Summer Rain» não deixaram de rodar.Meds, a mais recente colecção de originais, foi uma espécie de regresso à sonoridade mais crua e negra da banda, e contou com as presenças de Alison Mosshart, dos Kills, no tema que dá nome ao álbum, e com Michael Stipe, dos R.E.M. no dueto agridoce «Broken Promise». Foi, no entanto, «Song to Say Goodbye», o primeiro single internacional dos Placebo, que fez mossa nas rádios. Um ano depois da edição de Meds, chegou às lojas de forma independente uma colecção de versões intitulada Covers. O registo tinha sido editado originalmente como disco bónus de Sleeping With Ghosts, mas o sucesso ao vivo de versões de temas como «Running Up That Hill» de Kate Bush, «Where Is My Mind?» dos Pixies, «Bigmouth Strikes Again» dos Smiths ou «I Feel You» dos Depeche Mode justificou uma reedição isolada.13 Anos de PlaceboO álbum de estreia dos Placebo viu a luz do dia a 17 de Julho de 1996. O registo homónimo incluía dez canções e uma faixa escondida, «Hong Kong Farewell». O sucesso dos singles «Nancy Boy», «Bruise Pristine» ou «Teenage Angst» valeu-lhes uma vinda a Portugal, em Setembro do ano seguinte, para assegurar a primeira parte do concerto dos U2, integrado na digressão Popmart, no Estádio de Alvalade, em Lisboa. Placebo, o álbum, teve honras de reedição de comemoração do décimo aniversário. A 25 de Setembro de 2006, o registo voltou às lojas em formato remasterizado e com material de bónus suficiente para encher as medidas dos fãs. Além dos dez temas originais, a reedição conta com demos de «Paycheck», «Flesh Mechanic» e os lados b «Drowning By Numbers» e «Slackerbitch» e também com um DVD bónus, que inclui canções captadas ao vivo em programas de televisão e em concertos, tanto em festivais como em salas como a Wembley Arena.
Mário Rui Vieira